Siglas frequentes em sustentabilidade, mas será que o “S” é a principal interseção entre essas duas agendas?
A resposta está na pergunta: são agendas distintas. Em sua origem, natureza, escala e lógica operacional. Entretanto, convergentes e complementares. Assim, tratá-las como sinônimos, ou como distantes ou dissonantes é um equívoco que compromete a compreensão de ambas e, sobretudo, compromete a capacidade das organizações de extrair valor de cada uma delas. Ou melhor, o valor real dessas duas agendas conectadas em sinergia.
O ESG, acrônimo para Environmental, Social and Governance, surge em 2004, a partir do relatório Who Cares Wins, publicado no âmbito do do Pacto Global das Nações Unidas, como uma proposta de incorporação sistemática de critérios ambientais, sociais e de governança às decisões de investimento e à gestão corporativa. Seu contexto é organizacional. Sua motivação é integrar sustentabilidade à gestão empresarial e ao mercado de capitais e demonstrar que sustentabilidade e rentabilidade não são objetivos contraditórios. Que a incorporação de critérios extra financeiros tende a resultar em maior resiliência, menor exposição a riscos e melhor desempenho de longo prazo.
Os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) foram estabelecidos em 2015, durante a Cúpula das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, como parte da Agenda 2030 e compõem um conjunto de 17 objetivos e 169 metas voltados aos grandes desafios estruturais da humanidade. Seu contexto é global e multilateral. Seu alcance é planetário e sua lógica é a da cooperação entre Estados, sociedade civil, setor privado e organismos internacionais.
Essa diferença de origem não é obstáculo, pelo contrário, é o ponto de partida para a ponte e para a potência. Os ODS são objetivos inseridos em uma agenda de Estado, com legitimidade intergovernamental e vocação transformadora em escala global. O ESG, por sua vez, consiste em critérios e métricas inseridos em uma agenda organizacional, utilizados para orientar decisões, avaliar riscos e comunicar desempenho às partes interessadas. Tratam-se de escalas diferentes operando em lógicas distintas, mas com uma bússola comum: a transformação sustentável.
Estamos diante de escalas distintas, não de realidades incompatíveis. A distância entre as duas agendas não é estrutural; é estratégica e, sobretudo, uma questão de governança.
Cabe, aqui, uma pergunta provocativa: Como uma organização insustentável em sua governança e operação pode contribuir para a Agenda 2030?
É um contrassenso falar em ODS sem olhar para o próprio quintal. Sem uma estrutura de ESG, de responsabilidade social corporativa ou de governança institucional robusta, a contribuição declarada para os ODS corre o risco de ser apenas superficial e, em última análise, uma forma de greenwashing ou SDG-washing.
Sustentabilidade começa de dentro para fora: nas práticas de cultura organizacional, na cadeia de valor, nos processos de tomada de decisão, na forma como a empresa trata seus colaboradores, fornecedores, comunidades e no meio ambiente.
A conexão, porém, não é automática. Ela depende da visão e da estratégia das organizações, da capacidade de traduzir diretrizes globais em práticas organizacionais concretas e de articular critérios de gestão interna com objetivos de desenvolvimento que transcendem os limites de qualquer empresa ou setor.
A agenda ODS é estruturada por metas e indicadores globais, desdobrados em nível nacional que orientam a atuação dos países em torno de desafios comuns da humanidade. A agenda ESG, por sua vez, se materializa em critérios e indicadores organizacionais, utilizados para orientar decisões, avaliar riscos, oportunidades e impactos na gestão e nos negócios. Na prática, o que vemos com frequência é que essas estruturas, seja o tripé da sustentabilidade, os pilares ESG ou mesmo os temas materiais definidos frequentemente operam de forma isolada, sem diálogo entre si e sem conexão deliberada com a agenda global.
O desafio, portanto, é construir pontes e uma via de mão dupla em que esses elementos se conectem de forma intencional: onde os ODS informem e deem sentido real à estratégia organizacional, e onde o ESG ofereça a estrutura, os processos e os mecanismos de monitoramento para que esses objetivos ganhem vida no corporativo.
Essa conexão precisa ser sistêmica e recíproca: os ODS oferecem direção e contexto de urgência global, enquanto o ESG oferece arquitetura para a execução no nível organizacional.
Cabe aqui uma pergunta, ou melhor, algumas perguntas propositivas: E se as metas e indicadores ESG forem estruturados para contribuir diretamente em prol das metas e indicadores dos ODS? E se essa contribuição for mensurável, e integrada ao planejamento estratégico?
Quando essa conexão não é feita, cria-se uma desconexão silenciosa e custosa: organizações avançam nos seus indicadores ESG sem necessariamente gerar contribuição real e verificável para endereçar os desafios globais.O ESG passa a operar como instrumento de reputação ou de cumprimento de requisitos regulatórios e de mercado, e os ODS se tornam um discurso idealizado, presente nos relatórios de sustentabilidade, mas ausente das decisões que realmente importam. Perde-se a potência de ambas as agendas.
E essa desconexão não é apenas conceitual, ela é visível na prática. Hoje, um dos grandes desafios na agenda dos ODS é justamente a dificuldade de criar indicadores capazes de medir as metas globais e desdobrar indicadores em nível nacional. E isso revela algo ainda mais profundo: sem agendas locais, institucionais e organizacionais estruturadas, orientadas por abordagens como ESG ou outras, não há base consistente de dados capaz de fomentar essa construção. Ou seja: se as organizações não estruturam suas práticas, métricas e indicadores, a agenda global perde lastro. E, ao mesmo tempo, quando as políticas públicas, orientadas por essas metas globais, não se conectam com essas camadas organizacionais, elas também deixam de se materializar na prática.Cria-se, assim, um vazio entre escalas. E é exatamente nesse espaço que a estratégia e a governança se tornam decisivas.
Portanto, quando essa conexão é intencional, o que se constrói não é apenas alinhamento, é coerência sistêmica. Construir essa integração implica incorporá-la ao plano estratégico, ao plano de negócios, à gestão de riscos, aos sistemas de remuneração variável da liderança e aos mecanismos de monitoramento e prestação de contas.
É o "G" do ESG, a governança, que tem força para permitir que os ODS saiam do papel. A governança é o motor que traduz a meta global em indicador de desempenho, e o indicador de desempenho em critério de bônus do executivo, em decisão de investimento, em política de compras.
ODS orientam o "para onde". ESG estrutura o "como". Sustentabilidade na prática não se sustenta sem governança e nem sem viabilidade econômica. Integrar os dois é a visão estratégica que separa quem faz sustentabilidade por conformidade de quem faz por impacto.
E talvez o maior desafio, e também a maior oportunidade, esteja justamente em fazer essas agendas deixarem de operar em separado e passarem a compor, de forma integrada, um mesmo sistema. Uma construção que exige alinhamento institucional, ajuste contínuo e, sobretudo, intenção.
Por fim, o desafio está em conectar as “pontas soltas”, especialmente na articulação entre métricas globais, nacionais e organizacionais. A consistência da Agenda 2030 é fortalecida com a disponibilidade e integração de dados em múltiplas escalas, do nacional ao municipal, do setorial ao institucional. É na conexão entre essas dimensões e escalas que a agenda se sustenta e se torna cada vez mais concreta, e onde outras agendas convergem e somam potência.
E, em toda construção, há também um elemento de composição, e de poesia, que diz o que a prosa, às vezes, não alcança:
Notas sobre a autora e colunista para este artigo
Este artigo reflete a vivência de uma gestora que atua diretamente na integração das agendas de sustentabilidade e ESG em uma organização pública de pesquisa, e que recentemente ampliou sua compreensão ao participar do Encontro de Produtores de Informação visando à Agenda 2030.