A construção de uma democracia mais representativa passa, necessariamente, pelo reconhecimento da dignidade, da saúde, da economia do cuidado e da equidade de gênero como pilares estruturantes das políticas públicas. Foi com essa compreensão que lideranças femininas de diferentes áreas do conhecimento e da administração pública participaram de um dos principais painéis da Reunião Institucional Mulheres que Pensam o Brasil, realizada em 14 de julho, na Câmara dos Deputados.
Moderado por Paola Comin, diretora de Relações Internacionais do Instituto Global ESG e do Grupo Arnone – Ecossistema de Impacto L.E.I. (Legal, Empresarial e Institucional), o painel “Dignidade, Saúde e Economia do Cuidado” reuniu mulheres que ocupam posições estratégicas no Estado brasileiro, na academia, em organismos internacionais, na iniciativa privada e na sociedade civil para discutir propostas capazes de transformar o cuidado em prioridade da agenda política nacional.
Participaram do debate Ilana Trombka, diretora-geral do Senado Federal; Márcia Rollemberg, secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura; Semíramis de Oliveira Duro, vice-presidente do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF); Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, vice-presidente da Segunda Seção do CARF; Vanessa Duarte, secretária-executiva do Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia Legal; Márcia Abrahão Moura, ex-reitora da Universidade de Brasília (UnB); Rebecca Lemos Igreja, secretária-geral da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO); Sandra Soares Costa, vice-presidente do Conselho de Administração do Grupo Sabin; além de representantes da Revista Esplanada Mulher.
Mais do que discutir políticas voltadas às mulheres, o painel propôs uma mudança de perspectiva: reconhecer que o cuidado constitui uma dimensão estratégica do desenvolvimento sustentável, da governança pública, da produtividade econômica e da consolidação democrática. Ao longo das exposições, as participantes defenderam que saúde, proteção social, dignidade, cultura, educação e inclusão deixem de ser tratados como temas periféricos e passem a ocupar posição central na formulação das políticas públicas brasileiras.
As debatedoras destacaram que a distribuição historicamente desigual das responsabilidades de cuidado continua produzindo impactos diretos sobre a trajetória profissional das mulheres, sua autonomia financeira, sua renda, sua saúde física e mental e sua presença nos espaços de liderança e decisão. Também foram discutidas propostas voltadas à ampliação da oferta de creches, ao fortalecimento das redes públicas de atendimento, ao reconhecimento do trabalho remunerado e não remunerado do cuidado, ao aperfeiçoamento das políticas de proteção social e à valorização das mães atípicas e demais cuidadoras.
Outro aspecto amplamente debatido foi a necessidade de integrar diferentes áreas governamentais na formulação de políticas públicas. Saúde, educação, cultura, assistência social, desenvolvimento econômico e sustentabilidade foram apresentados como temas interdependentes, cuja efetividade depende de uma atuação coordenada entre Estado, sociedade civil, setor produtivo, universidades e organismos internacionais.
Ao conduzir o painel, Paola Comin destacou que um dos maiores resultados do encontro foi demonstrar a capacidade de mulheres com diferentes trajetórias profissionais e visões de mundo construírem consensos em torno de objetivos comuns.
“Foi um encontro que ultrapassou divisões partidárias e ideológicas. Mulheres de diferentes trajetórias se reconheceram em desafios que atravessam a vida de todas: a conciliação entre cuidado e trabalho, a dificuldade de ocupar posições de liderança, a desconfiança sobre suas competências e as formas de violência que ainda limitam sua presença na vida pública.”
Segundo Paola, a construção de uma agenda pública comprometida com a equidade exige cooperação institucional e fortalecimento da participação feminina nos espaços onde são tomadas as decisões estratégicas.
“Precisamos construir pontes em lugar de muros. A equidade de gênero é uma dimensão essencial do desenvolvimento sustentável e do componente social do ESG. Não haverá governança verdadeiramente representativa enquanto as mulheres estiverem fora dos espaços em que as decisões são tomadas. O ESG na prática também acontece no Parlamento, nos tribunais, nas empresas, nas universidades e em todas as instituições que definem os rumos do país.”
Ao abordar especificamente a economia do cuidado, Paola ressaltou que o tema deve deixar de ser compreendido apenas como responsabilidade privada para assumir posição estratégica nas políticas públicas brasileiras.
“O cuidado é uma força social, econômica e política. Quando reconhecido e transformado em política pública, ele melhora a qualidade das instituições, amplia oportunidades e produz respostas mais humanas para os problemas do país. A Carta representa uma oportunidade de converter essa percepção em compromissos estruturados, mensuráveis e acompanháveis.”
Na condição de correalizador da iniciativa, o Instituto Global ESG reafirmou durante o encontro que a agenda ESG ultrapassa a dimensão ambiental e incorpora, como elemento indissociável do desenvolvimento sustentável, a promoção dos direitos humanos, da diversidade, da inclusão, da equidade de gênero, da proteção de grupos vulneráveis e do fortalecimento da governança institucional. Sob essa perspectiva, a dimensão social do ESG pressupõe ampliar a presença das mulheres nos espaços de liderança e decisão, promovendo instituições mais inclusivas, representativas e comprometidas com o interesse público.
As contribuições apresentadas durante o painel passam a integrar a Carta das Mulheres para a Política, documento construído de forma colaborativa que reunirá propostas voltadas ao fortalecimento da democracia paritária, da participação política feminina, da proteção jurídica, da saúde, da economia do cuidado, da educação, da cultura, da comunicação, do financiamento das candidaturas femininas e da igualdade de oportunidades. Após sua consolidação, a Carta será apresentada às candidaturas das eleições de 2026 como referência para compromissos públicos voltados ao fortalecimento da representação feminina e ao desenvolvimento sustentável.
O painel integrou a programação da Reunião Institucional Mulheres que Pensam o Brasil, iniciativa liderada pela Quero Você Eleita (QVE) e realizada em articulação com o Instituto Global ESG, Elas Pedem Vista, Elas no Poder, Instituto Latino-Americano de Governança e Compliance Público (IGCP), Rede Governança Brasil (RGB), RIG – Mulheres em Relações Governamentais e Lumine Gestão & Comunicação, organizações que atuam de forma colaborativa na promoção da democracia, da equidade de gênero, do fortalecimento institucional e da ampliação da participação das mulheres nos espaços de liderança e decisão.