O Brasil encerra 2025 em posição estratégica no debate internacional sobre sustentabilidade, transição energética e financiamento verde. O diagnóstico foi apresentado pelo advogado Felipe Alexandre, especialista em direito empresarial e tributário do Grupo Arnone, em entrevista ao programa Real Time, da CNBC - Times Brasil, apresentado por Marcelo Torres.
Ao longo da conversa, o especialista destacou como o financiamento verde vem se consolidando como um dos principais instrumentos de direcionamento de capital para projetos sustentáveis, impulsionado por mudanças legais, políticas públicas estruturantes e maior maturidade institucional do mercado brasileiro.
O que é financiamento verde e por que ele ganhou centralidade em 2025
Logo no início da entrevista, Felipe Alexandre contextualizou o conceito, afastando leituras simplificadas. Segundo ele, financiamento verde não se resume a uma tendência de mercado, mas representa uma mudança estrutural na forma como o capital é alocado.
“O financiamento verde é, essencialmente, como o verde vira capital. Trata-se da alocação de recursos — créditos, títulos, fundos e instrumentos financeiros — para projetos que geram benefícios ambientais mensuráveis”, afirmou.
Nesse contexto, o advogado citou tanto mecanismos regulatórios brasileiros quanto frameworks internacionais, como os green bonds, cada vez mais utilizados para canalizar investimentos para iniciativas que reduzem emissões, preservam recursos naturais e promovem eficiência energética.
Avanços regulatórios e o papel da reforma tributária
Um dos pontos centrais da análise foi o ambiente regulatório brasileiro, que passou por transformações relevantes em 2025. Felipe Alexandre destacou a convergência entre política fiscal, sustentabilidade e incentivos econômicos.
“A reforma tributária criou instrumentos importantes, como o imposto seletivo, que atua para desestimular o consumo de produtos que degradam o meio ambiente. Isso é política ambiental feita por meio da tributação”, explicou.
Segundo ele, a lógica é alinhar incentivos econômicos a comportamentos sustentáveis, estimulando empresas e consumidores a migrarem para modelos de menor impacto ambiental.
PATEN e a política pública de transição energética
Outro marco ressaltado foi a sanção do Programa de Aceleração da Transição Energética (PATEN), instituído pela Lei nº 15.103/2025. Para o especialista, o programa representa um divisor de águas na ampliação do acesso ao crédito para projetos de baixo carbono.
“O PATEN amplia significativamente o acesso a financiamento para empresas comprometidas com a transição energética. Ele se soma à reforma tributária e cria um ambiente muito mais favorável para investimentos sustentáveis no Brasil”, afirmou.
Felipe também observou que o avanço não se restringe ao Executivo. Órgãos de controle e fiscalização têm desempenhado papel relevante na consolidação dessa agenda.
“Há uma atuação cada vez mais consistente de instituições como tribunais de contas, órgãos de controle e do Ministério Público, além da sociedade civil organizada, promovendo uma nova mentalidade sobre investimento e responsabilidade ambiental”, pontuou.
ESG como requisito estrutural — e não discurso
Questionado sobre os caminhos para empreendedores atraírem capital verde, Felipe Alexandre foi enfático ao afastar soluções superficiais.
“Não existe mais espaço para ESG de fachada. A implementação de uma política ESG robusta é indispensável para quem busca financiamento, seja público, como o BNDES, seja privado”, afirmou.
Segundo ele, o ESG deve estar integrado aos processos internos da empresa, com governança clara, compliance ambiental efetivo e mecanismos de mitigação de riscos.
“O mercado e os financiadores querem consistência. Não basta discurso. É preciso demonstrar, com dados e processos, que o negócio está preparado para esse novo modelo”, disse.
Planejamento tributário e recuperação de créditos como estratégia
Outro ponto destacado foi a relação entre sustentabilidade e planejamento tributário. Felipe Alexandre explicou que novas normas vêm permitindo a integração entre políticas ESG e mecanismos de recuperação de créditos tributários.
“A legislação evoluiu para permitir que ações tributárias e planejamento fiscal dialoguem com a agenda ESG. Isso melhora a bancabilidade dos projetos e aumenta a atratividade para o capital verde”, observou.
Na avaliação do advogado, empresas que alinham sustentabilidade, conformidade legal e eficiência fiscal tendem a acessar melhores condições de financiamento.
Negócios de impacto e setores com maior facilidade de captação
Ao tratar de negócios cujo impacto ambiental positivo está no próprio núcleo da atividade — como limpeza urbana, coleta seletiva e reflorestamento —, Felipe reconheceu que há, sim, maior facilidade de acesso ao capital verde.
“Esses setores têm uma vantagem clara, porque o impacto ambiental já é mensurável e diretamente ligado ao core business. Mas isso não elimina a necessidade de estruturação jurídica e de compliance”, ponderou.
Ele definiu o investimento verde como uma construção “tridimensional”, que envolve consciência ESG, conformidade jurídico-ambiental e organização de processos internos.
Complexidade normativa exige atuação multidisciplinar
Por fim, Felipe Alexandre alertou para a crescente complexidade da legislação ambiental e infralegal no Brasil, que demanda atuação técnica especializada.
“Hoje temos múltiplos mecanismos legais novos. Para aproveitar incentivos e reduzir riscos, é fundamental contar com equipes multidisciplinares, capazes de interpretar a legislação ambiental, tributária e regulatória de forma integrada”, concluiu.
Um cenário de consolidação e amadurecimento
A entrevista reforçou a percepção de que 2025 marca a consolidação do financiamento verde no Brasil, sustentado por avanços regulatórios, políticas públicas estruturantes e maior alinhamento institucional.
Para empresas e empreendedores, a mensagem é clara: sustentabilidade deixou de ser diferencial reputacional e passou a ser elemento central de acesso a capital, competitividade e permanência no mercado.