No TCU, Daniel Almeida destaca transformação digital, inovação e cocriação como novos pilares das compras públicas na era da Governança 5.0

Consultor do Portal de Compras Públicas defende mudança de paradigma, adoção intensiva de tecnologia, fortalecimento da competição e sustentabilidade como eixo estruturante das contratações governamentais

04/12/2025 06h38 - Atualizado há 3 meses

No TCU, Daniel Almeida destaca transformação digital, inovação e cocriação como novos pilares das compras
Victor Vilela

O painel “Do Contrato à Cocriação: Parcerias Inteligentes e Compras Sustentáveis na Era da Governança 5.0”, realizado nesta terça-feira (3/12) no auditório principal do Tribunal de Contas da União (TCU), marcou um dos momentos mais técnicos e estratégicos da abertura do Global GRC Summit 2025 – Governance Beyond Borders.

 

Ao lado de Renata Andrade e Sóstenes Marchezine, o consultor e professor Daniel Almeida, especialista em contratações públicas e pesquisador do setor, apresentou uma análise aprofundada sobre os novos rumos da gestão de compras no país.

 

Com mais de 25 anos de experiência nas esferas federal, estadual, municipal e no Sistema S, Daniel defendeu que o Brasil vive “uma transição irreversível” no campo das licitações: da lógica do contrato tradicional para um modelo baseado em parcerias inteligentes, inovação contínua e cocriação de valor público.

 

Do contrato à cocriação: uma mudança estrutural

Na visão de Daniel Almeida, o modelo de compras centrado apenas na transação, no menor preço e em especificações rígidas já não atende às demandas do Estado contemporâneo. Esse paradigma, observou, gera relações adversariais, reduz margens para inovação e transforma a sustentabilidade em mera formalidade documental.

 

O futuro, afirmou, passa por uma concepção ampliada de contratação pública — orientada a resultados, diálogo construtivo e colaboração estratégica entre administração, fornecedores e sociedade.
 

Cocriação significa construir soluções, não apenas adquirir itens. É migrar do checklist para o impacto real”, disse.

 

 

Governança 5.0: tecnologia exponencial e foco humano

Daniel avaliou que a Governança 5.0 — tema central do painel — inaugura uma era em que tecnologia exponencial (como inteligência artificial, big data e blockchain) se integra ao foco humano e à sustentabilidade. Essa combinação, explicou, exige que os sistemas de compras públicas adotem digitalização total, eliminação de processos físicos, dados abertos e automação inteligente capaz de liberar gestores para atividades estratégicas.

 

Segundo ele, a integração obrigatória com plataformas como o PNCP, somada ao uso de algoritmos de referência de preços e mecanismos de rastreabilidade, fortalece a transparência e a segurança jurídica — pilares indispensáveis em um ambiente de contratações de alta complexidade.

 

O papel das plataformas GovTech e a força dos dados

Ao destacar o avanço das GovTechs no ecossistema público, Daniel citou o Portal de Compras Públicas como exemplo de solução que conecta a burocracia do passado à inteligência do futuro, reunindo milhares de compradores digitais e uma base crescente de fornecedores qualificados.

 

De acordo com o consultor, plataformas digitais com banco de preços atualizado, histórico de fornecedores e mecanismos de pré-qualificação permitem identificar capacidades técnicas, prever riscos, automatizar verificações e ampliar a eficiência das compras. Além disso, ferramentas baseadas em inteligência artificial começam a identificar indícios de fracasso de licitações, desertificação do certame ou até potenciais fraudes — oferecendo recomendações preditivas aos gestores.

 

Compras sustentáveis: do selo ao ciclo de vida

Daniel também abordou a evolução das compras públicas sustentáveis, explicando que a sustentabilidade deixou de ser um anexo protocolar dos editais para se tornar parte do ciclo de vida das contratações. Ele defendeu que filtros automáticos de compliance, verificação de regularidade ambiental, estímulo à economia circular e prioridade a micro e pequenas empresas locais podem gerar impactos diretos na redução de emissões e no fortalecimento econômico regional.

 

A ampliação da transparência ESG — com dados abertos que permitam à sociedade fiscalizar o cumprimento de metas verdes — foi apresentada como condição para consolidar a responsabilidade socioambiental do Estado.

 

O futuro das compras: marketplace público, blockchain e competição qualificada

Daniel explicou que a evolução para marketplaces públicos tende a simplificar fluxos, reduzir assimetrias de informação e ampliar o acesso dos fornecedores. Mecanismos como preço de referência por inteligência artificial, participação passiva de fornecedores, integração logística e critérios objetivos de desempate promovem maior competição e tratam de forma isonômica pequenos e grandes players.

 

O uso de blockchain — com rastreabilidade integral — foi apontado como vetor de integridade e confiança, especialmente em compras de grande porte e contratações sensíveis.

 

Parcerias inteligentes como motor da inovação pública

O consultor destacou que parcerias inteligentes começam com o acesso democrático aos sistemas de compras e se concretizam quando gestores utilizam as plataformas não apenas para publicar editais, mas para lançar desafios ao mercado, fomentar soluções inovadoras e criar um ambiente colaborativo com outras instituições.

 

Daniel recomendou que gestores públicos explorem ativamente o mercado, fomentem competição, colaborem em redes interinstitucionais e exijam sustentabilidade de fornecedores — práticas que, em sua avaliação, elevam a qualidade do gasto público e aproximam o país das melhores referências internacionais.

 

“O futuro é colaborativo”

Ao encerrar, Daniel reforçou que o ambiente das compras públicas deve ser compreendido como espaço de encontro entre governo e sociedade.
 

Não é apenas uma ferramenta de transação. É o ambiente onde se cocriam as soluções que vão definir o valor público da próxima década”, afirmou.

 

O painel, realizado instantes antes do coquetel de lançamento das obras científicas do Summit, foi visto pelos organizadores como um dos momentos fundacionais da programação, por sintetizar a convergência entre tecnologia, governança, sustentabilidade e integridade, temas que nortearão os três dias de debates no TCU.


Notícias Relacionadas »