A publicação da ABNT ISO IWA 48:2026, versão brasileira da ISO IWA 48:2024, introduz no país uma abordagem estruturada para avaliação da maturidade das organizações em ESG (Environmental, Social and Governance). Mais do que estabelecer requisitos técnicos, o documento propõe uma mudança conceitual: o ESG deixa de ser compreendido como um conjunto de iniciativas isoladas ou um selo de conformidade e passa a ser tratado como um processo contínuo de transformação cultural, organizacional e institucional.
Essa é uma das principais conclusões da análise técnico-jurídica desenvolvida pelos juristas Alexandre Arnone e Sóstenes Marchezine, publicada no tradicional portal jurídico Migalhas sob o título “ABNT ISO IWA 48:2026 e a consolidação de uma arquitetura técnica para o ESG no Brasil”. O estudo examina como a nacionalização da norma oferece uma estrutura integrada para transformar compromissos ESG em governança, evidências e resultados, em sintonia com o Programa ESG20+.
Segundo os autores, um dos aspectos mais inovadores da norma é a apresentação de uma matriz composta por quatro estágios de maturidade, que permitem compreender o nível de integração do ESG às estruturas decisórias das organizações.
“O ESG não deve ser analisado sob uma lógica binária, de quem possui ou não determinadas políticas. A maturidade organizacional decorre da evolução da cultura, da governança, da forma como decisões são tomadas e da capacidade institucional de produzir resultados consistentes ao longo do tempo”, destacam os autores.
Uma jornada de transformação organizacional
A lógica proposta pela ISO IWA 48 parte do entendimento de que a sustentabilidade corporativa é construída progressivamente.
Nesse contexto, a evolução ocorre desde organizações que atuam apenas para atender exigências externas até aquelas em que o ESG está plenamente incorporado aos valores institucionais, à estratégia e aos processos de tomada de decisão.
A trajetória descrita pela norma pode ser sintetizada em quatro fases sucessivas:
Segundo a análise, a proposta rompe com avaliações superficiais baseadas exclusivamente na existência de relatórios, políticas internas ou certificações.
“O relatório demonstra aquilo que a organização comunica. A maturidade revela como ela realmente funciona”, observam Arnone e Marchezine.
Cultura organizacional no centro da transformação
A ISO IWA 48 dedica atenção especial ao conceito de cultura organizacional.
De acordo com a norma, cultura compreende o conjunto de valores, comportamentos, pressupostos e práticas cotidianas que orientam a atuação das pessoas dentro da organização. Por isso, a implementação efetiva do ESG depende do alinhamento entre missão, visão, estratégia, liderança, responsabilidades, indicadores e processos decisórios.
Na avaliação dos autores, esse é o principal diferencial da norma.
“O maior desafio do ESG não é tecnológico nem documental. É cultural. A transformação começa quando a organização deixa de perguntar apenas ‘o que precisamos cumprir?’ e passa a perguntar ‘que impactos queremos produzir?’”, afirmam.
Riscos da maturidade inicial
A análise também chama atenção para os riscos enfrentados por organizações que permanecem nos estágios iniciais de maturidade.
Entre eles estão o greenwashing, a desconexão entre comunicação e prática, fragilidades de governança, declarações sem evidências consistentes, perda de credibilidade perante investidores e maior exposição a riscos regulatórios e reputacionais.
Segundo os autores, políticas institucionais, campanhas de comunicação ou relatórios de sustentabilidade, quando desacompanhados de mudanças efetivas nos processos decisórios, tendem a produzir resultados limitados.
“A cultura é o elemento que distingue organizações que apenas comunicam compromissos daquelas capazes de gerar impactos sustentáveis de forma consistente”, observam.
Uma nova arquitetura técnica para o ESG brasileiro
Para Arnone e Marchezine, a nacionalização da ISO IWA 48 representa um marco importante na evolução da agenda ESG no Brasil ao oferecer parâmetros técnicos para orientar organizações públicas e privadas na construção de modelos mais consistentes de governança, implementação e melhoria contínua.
A proposta dialoga com tendências internacionais de fortalecimento da governança corporativa, da gestão baseada em evidências, da dupla materialidade, da integração entre riscos e sustentabilidade e da prestação de contas aos diferentes públicos de interesse.
Ao mesmo tempo, reforça que a evolução organizacional não se mede pelo volume de iniciativas implementadas, mas pela qualidade das decisões, pela maturidade da governança e pela capacidade institucional de transformar princípios em resultados verificáveis.
Leitura complementar
A análise completa está disponível no tradicional portal jurídico Migalhas:
Versão ampliada publicada no Substack do Portal Global ESG:
https://open.substack.com/pub/globalesg/p/abnt-iso-iwa-482026-e-a-consolidacao
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A análise desta matéria fundamenta-se na ISO IWA 48:2024, nacionalizada no Brasil como ABNT ISO IWA 48:2026, especialmente na matriz de maturidade organizacional, nos conceitos de cultura, governança, melhoria contínua e integração estratégica do ESG.