A retomada da agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil, a reorganização da Comissão Nacional para os ODS no âmbito da Secretaria-Geral da Presidência da República e a construção da 1ª Conferência Nacional dos ODS foram os eixos centrais do podcast gravado com Lavito Bacarissa, secretário-executivo da CNODS/PR. A conversa reuniu também representantes do Instituto Global ESG — seu vice-presidente, Sóstenes Marchezine, membro efetivo da comissão em representação do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (CFOAB), e a diretora de Relações Institucionais e Governamentais, Ana Clara Moura —, consolidando uma leitura estratégica sobre o momento vivido pelo país.
Ao longo do episódio, ficou evidente que a agenda dos ODS deixou de ocupar apenas o campo programático ou diplomático e passou a ser tratada como instrumento concreto de planejamento, coordenação federativa, participação social e transformação territorial. Em uma conversa marcada por densidade técnica e articulação institucional, os participantes defenderam a necessidade de consolidar o desenvolvimento sustentável como política de Estado, ancorada em governança transversal e engajamento coletivo.
Lavito Bacarissa apresentou a lógica institucional da comissão, explicou por que a conferência vem ganhando projeção nacional e sustentou que o êxito da agenda depende menos de protagonismos isolados e mais da capacidade de articulação entre Estado, sociedade civil, setor privado, academia e comunidades locais. “Essa construção é uma construção coletiva”, afirmou. “Eu só tenho a oportunidade de exercer a função de secretário-executivo desse coletivo enorme que é a Comissão Nacional dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.”
A fala sintetiza o espírito de uma agenda que, segundo ele, precisa ser territorializada, democratizada e traduzida para a realidade concreta do país. Em vez de uma formulação abstrata, a proposta é fazer dos ODS uma linguagem viva de políticas públicas, com incidência direta nos municípios, nos estados e nos diferentes territórios sociais.
A comissão como espaço de reconstrução institucional
Um dos pontos centrais da entrevista foi a explicação sobre o papel da Comissão Nacional dos ODS e sua vinculação à Secretaria-Geral da Presidência da República. Segundo Bacarissa, essa estrutura institucional está diretamente relacionada ao compromisso com a participação social e com o fortalecimento da democracia participativa.
A comissão reúne representantes do governo federal, governos subnacionais e sociedade civil organizada em um arranjo voltado à implementação da Agenda 2030. “O governo federal todo está representado dentro da comissão, mais os governos subnacionais, estados e municípios, mais 42 representações da sociedade civil”, destacou.
A reorganização da CNODS, no contexto da retomada da agenda pelo governo federal, foi apresentada como um movimento de reconstrução institucional. Mais do que reativar um colegiado, trata-se de estruturar uma governança capaz de integrar formulação, escuta social e execução de políticas públicas em torno do desenvolvimento sustentável.
Conferência Nacional dos ODS: mobilização inédita e construção coletiva
A 1ª Conferência Nacional dos ODS foi tratada como o principal instrumento de mobilização e organização dessa agenda no país. Bacarissa destacou o caráter desafiador da iniciativa, que busca envolver um país de dimensões continentais, marcado por profundas diferenças regionais, sociais e culturais.
“É muito difícil pensar em realizar um processo conferencial que tem como objetivo mobilizar todo um país”, afirmou. “Estamos falando de um Brasil com regionalidades e peculiaridades muito diversas.”
O modelo adotado prevê etapas livres, conferências estaduais, validação digital e uma etapa nacional em Brasília, estruturando um processo progressivo de construção coletiva. O objetivo é gerar insumos qualificados a partir das realidades locais e consolidá-los em um documento final capaz de orientar políticas públicas e a atuação da comissão.
A etapa nacional está prevista para ocorrer entre 29 de junho e 2 de julho, no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), em Brasília, com expectativa de reunir cerca de 1.500 delegados e delegadas oriundos das fases preparatórias.
Participação social e protagonismo multissetorial
Ao ser questionado sobre o papel da sociedade civil e da iniciativa privada, Bacarissa foi enfático ao afirmar que esses atores são protagonistas do processo conferencial. A agenda dos ODS, segundo ele, só será bem-sucedida se for construída coletivamente.
“Ou ela vai ter êxito de maneira coletiva, ou a gente vai fracassar coletivamente também”, disse.
A fala reforça uma concepção contemporânea de governança pública, baseada na cooperação entre diferentes setores e na construção compartilhada de soluções para problemas complexos. Nesse contexto, iniciativas como o Programa ESG20+, conduzido pelo Instituto Global ESG no âmbito do Movimento Interinstitucional ESG na Prática, foram destacadas como contribuições relevantes para o alinhamento entre ESG e ODS e para a formulação de políticas públicas estruturantes.
Territorialização, diversidade e foco nos beneficiários
Outro eixo relevante da entrevista foi a defesa de uma abordagem territorial da agenda dos ODS. Bacarissa ressaltou que a efetividade das políticas públicas depende da capacidade de compreender e incorporar as especificidades regionais e sociais do Brasil.
Ele citou, como exemplo, os impactos diferenciados da crise climática sobre populações específicas, como mulheres negras em áreas rurais e comunidades periféricas nas cidades. “Você precisa ir qualificando a política pública para entregar para o beneficiário, no final”, afirmou.
A conferência, nesse sentido, busca captar contribuições de todo o país, incluindo populações tradicionalmente sub-representadas no debate público, como comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas.
ODS, ESG e economia de impacto: integração de agendas
A relação entre ODS, ESG e economia de impacto também foi abordada. Para Bacarissa, as diferenças entre essas agendas são, em grande medida, de linguagem e de público-alvo.
“O ESG comunica mais com o setor privado, enquanto os ODS são mais palatáveis para a gestão pública”, explicou. “Mas eles estão totalmente conectados.”
A fala converge com a atuação do Instituto Global ESG, que tem trabalhado na parametrização e no alinhamento entre essas agendas, buscando integrá-las em uma abordagem sistêmica voltada ao desenvolvimento sustentável.
Agenda pós-2030 e institucionalização como política de Estado
O podcast também avançou sobre o debate da agenda pós-2030. Bacarissa destacou que, embora os ODS tenham metas e prazos definidos, os desafios relacionados ao modelo de desenvolvimento e à sustentabilidade permanecerão no centro das políticas públicas nas próximas décadas.
“Nós queremos transformar isso em política de Estado”, afirmou.
A conferência nacional, nesse contexto, é vista como um marco estratégico para consolidar insumos, orientar decisões futuras e fortalecer a institucionalização da agenda no Brasil.
Ao final, o secretário-executivo fez um convite direto à sociedade: participar das etapas preparatórias, contribuir com propostas e engajar-se no processo conferencial. A mobilização ampla, segundo ele, é condição essencial para que a agenda dos ODS se traduza em resultados concretos na vida das pessoas.
“Não apenas acompanhe, mas realize o processo conferencial, ou seja, indutor na sua realidade local”, concluiu.