Indústria brasileira avança na agenda ESG, mas ainda enfrenta desafios estruturais e financeiros

Sondagem da CNI revela que 43% das empresas já possuem área dedicada ao tema, enquanto financiamento sustentável e integração estratégica seguem como gargalos

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A agenda ESG (ambiental, social e governança) vem se consolidando no setor industrial brasileiro, com avanços relevantes em estrutura organizacional, conhecimento e priorização de temas estratégicos. Ao mesmo tempo, o país ainda enfrenta entraves importantes — sobretudo no acesso a financiamento sustentável, na maturidade das pequenas e médias empresas e na integração efetiva do ESG ao modelo de negócios.

É o que aponta a Sondagem Especial nº 97 – Meio Ambiente, Social e Governança, elaborada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com base em pesquisa realizada com 336 empresas dos setores extrativo, de transformação e da construção.

O levantamento mostra que 43% das indústrias brasileiras já contam com uma estrutura dedicada ao ESG, evidenciando a institucionalização progressiva do tema nas organizações. O dado, no entanto, revela forte assimetria por porte: enquanto 65% das grandes empresas possuem área estruturada, o índice cai para 38% nas médias e apenas 24% nas pequenas.

 

ESG deixa de ser discurso e avança na governança corporativa

A pesquisa indica que o ESG já ultrapassou o campo conceitual e passa a integrar, ainda que de forma desigual, a governança corporativa das empresas. O conhecimento sobre o tema é relativamente disseminado: oito em cada dez indústrias afirmam conhecer, ao menos parcialmente, o conceito, embora apenas 19% declarem possuir ampla experiência.

Em termos organizacionais, a agenda ESG está majoritariamente vinculada à alta liderança: em 52% dos casos, responde a diretores; em 26%, ao CEO; e em 14%, ao conselho de administração. O dado reforça a tendência de incorporação do tema em níveis estratégicos de decisão.

 

Prioridades revelam foco operacional e risco regulatório

A análise por pilares mostra que as empresas ainda concentram esforços em temas operacionais e de conformidade.

No eixo ambiental, a gestão de resíduos lidera com folga (81%), seguida por eficiência energética (69%) e uso da água (66%). Já temas mais estruturantes e de longo prazo, como adaptação às mudanças climáticas, aparecem com menor relevância, indicando uma abordagem ainda reativa e não plenamente estratégica.

Na dimensão social, a saúde e segurança ocupacional desponta como principal prioridade (84%), acompanhada por desenvolvimento profissional e relacionamento com clientes (65%).

No campo da governança, há maior heterogeneidade. Grandes empresas priorizam compliance e integridade (72%), enquanto médias e pequenas concentram esforços em controles internos e gestão de riscos.

 

Financiamento sustentável ainda é exceção no setor industrial

Um dos principais achados da sondagem é a baixa utilização de instrumentos financeiros alinhados ao ESG. Apenas 10% das empresas buscaram financiamento sustentável nos 12 meses anteriores à pesquisa.

Entre as principais barreiras apontadas estão:

  • falta de conhecimento sobre linhas de crédito sustentáveis;
  • condições financeiras desfavoráveis;
  • processos burocráticos e lentos.

O dado revela um desalinhamento entre a crescente agenda ESG e a mobilização de capital para viabilizá-la, indicando espaço para políticas públicas, instrumentos financeiros e iniciativas de capacitação.

 

Reporte ainda é limitado e desigual

A transparência na divulgação de práticas ESG também apresenta desafios. Apenas 41% das indústrias publicam relatórios de sustentabilidade ou informações correlatas, enquanto 48% ainda não realizam qualquer tipo de reporte.

Novamente, há forte disparidade por porte: 64% das grandes empresas reportam seus resultados, contra 41% das médias e apenas 17% das pequenas.

 

Maturidade ESG avança, mas integração ainda é o principal desafio

Apesar dos avanços, a pesquisa evidencia que a agenda ESG ainda não está plenamente integrada ao núcleo estratégico das empresas brasileiras. As motivações para adoção do tema permanecem distribuídas entre fatores como uso sustentável de recursos (36%), conformidade legal (35%) e reputação (34%), indicando ausência de um vetor dominante de transformação.

Além disso, a percepção sobre dificuldades varia conforme o porte: enquanto pequenas e médias empresas apontam a governança como principal desafio, grandes empresas identificam a dimensão ambiental como mais complexa de implementar.

 

Vertentes de pauta e desdobramentos possíveis

A publicação abre múltiplas frentes de cobertura jornalística e institucional, com potencial de desdobramento em diferentes agendas:

  • Finanças sustentáveis: lacuna no acesso a crédito ESG e necessidade de instrumentos mais acessíveis;
  • Desigualdade empresarial: gap estrutural entre grandes, médias e pequenas empresas;
  • Regulação e compliance: fortalecimento da governança como vetor de competitividade;
  • Transição climática: baixa priorização de adaptação climática no setor produtivo;
  • Transparência e reporte: desafios na padronização e divulgação de dados ESG;
  • Capacitação e cultura corporativa: necessidade de formação técnica para consolidação da agenda.

Ao evidenciar avanços e limitações, a sondagem posiciona o ESG como elemento central para o futuro da indústria brasileira — não apenas como exigência reputacional, mas como fator determinante de competitividade, acesso a mercados e sustentabilidade econômica de longo prazo.

Para acessar a pesquisa na íntegra, clique aqui.


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