O artigo publicado no Portal Global ESG aborda, com rigor analítico, a crescente tensão geopolítica que envolve Israel, Irã e os Estados Unidos após a morte confirmada do líder supremo iraniano Ali Khamenei em ataque coordenado atribuído a potências estrangeiras.
Os coautores — o advogado Sóstenes Marchezine, vice-presidente do Instituto, e a internacionalista Paola Comin, diretora de Relações Internacionais da mesma instituição — propõem uma avaliação estrutural, histórica e probabilística sobre se o atual momento pode representar uma inflexão global comparável à configuração de uma guerra mundial contemporânea.
Diferentemente de abordagens que interpretam conflitos por analogia superficial com as guerras mundiais passadas, o estudo parte da premissa de que a caracterização de uma guerra sistêmica deve considerar três elementos essenciais: o envolvimento de potências centrais, impacto global generalizado e reconfiguração duradoura da ordem internacional. No século XXI, a guerra tem contornos híbridos e multidomínio, envolvendo não apenas confrontos militares convencionais, mas também componentes cibernéticos, econômicos, informacionais e tecnológicos, transformando disputas regionais em crises de alcance sistêmico.
Decapitação política e ruptura na prática internacional
A morte de Khamenei é caracterizada pelos autores como uma “decapitação política” — a eliminação de um chefe de Estado soberano em um contexto de operação militar de alta complexidade atribuída a atores estatais. Esse evento, segundo o artigo, representa uma ruptura significativa na prática internacional contemporânea por alterar padrões tradicionais de contenção e legitimidade, elevando a temperatura estratégica do sistema global. A capacidade do Irã de manter coesão institucional após o ataque, incluindo a formação de um conselho interino, não elimina o risco de retaliações prolongadas ou escaladas indiretas.
Transição hegemônica e multipolaridade
Os autores situam o conflito no contexto mais amplo de transição hegemônica global, na qual a hegemonia tradicionalmente exercida pelos Estados Unidos enfrenta contestação crescente da China, enquanto a Rússia adota posturas que desafiam a ordem internacional estabelecida no pós-Segunda Guerra Mundial. Em períodos de redistribuição de poder, recordam os coautores, aumentam historicamente os riscos de conflito sistêmico, pois rivalidades entre blocos de poder tendem a se intensificar.
Nesse processo, fóruns como o BRICS refletem rearranjos geoeconômicos e a consolidação de espaços de cooperação alternativos, contribuindo para a polarização estratégica global.
Energia, gargalos estratégicos e dissuasão nuclear
Outro vetor analisado é o papel de gargalos energéticos, como o Estreito de Ormuz, que é crucial para o fluxo de combustíveis fósseis global. Sua eventual interrupção poderia gerar efeitos imediatos sobre mercados, cadeias de suprimento e custos políticos internos de grandes potências, ampliando o escopo e o impacto de uma crise militar que inicialmente se restringe a um teatro regional.
A análise também destaca a importância da dissuasão nuclear como principal mecanismo de contenção entre potências com capacidades atômicas avançadas. O conceito de destruição mútua assegurada, embora não elimine inteiramente os riscos de erro de cálculo, impõe limites racionais ao uso deliberado de capacidades nucleares em conflitos de grande escala.
Cenários probabilísticos projetados
A partir da combinação de variáveis estruturais (transição hegemônica), conjunturais (confronto direto e decapitação política) e mecanismos de contenção (dissuasão nuclear e interdependência econômica), o artigo projeta três cenários:
Os autores ressaltam que a maior vulnerabilidade reside na escalada involuntária — decisões táticas que geram consequências estratégicas imprevisíveis — particularmente em um sistema internacional que já demonstra sinais de tensão estrutural acumulada.
Antecedentes e janela decisória
O estudo também reconstrói um arco histórico que antecede o momento atual, destacando eventos como a crise ucraniana iniciada em 2014 e sua escalada em 2022, além de elementos de rivalidade energética e ideológica que se estendem por diversas regiões e atores. Para os coautores, tais antecedentes indicam que o atual choque — entre Israel, Irã e o papel indireto de potências externas — é expressão de uma ordem internacional em transição permanente.
Nesse sentido, os próximos dias e semanas são descritos como uma “janela decisória crítica”, na qual lideranças políticas e militares ponderarão custo político, econômico e risco estratégico de intensificação ou contenção dos confrontos. A capacidade de canais diplomáticos e mecanismos de prevenção de conflitos será determinante para evitar que o sistema internacional evolua de uma crise ampliada para uma guerra sistêmica de escala verdadeiramente global.
Leia o artigo completo em: https://globalesg.com.br/coluna/43/estamos-a-beira-da-terceira-guerra-mundial