Por Sóstenes Marchezine* e Paola Comin*
Introdução
A pergunta deixou de ser retórica e passou a ocupar o centro do debate estratégico global: estamos à beira da Terceira Guerra Mundial? O conflito direto entre Israel e Irã, com participação operacional dos Estados Unidos, alterou significativamente o equilíbrio regional. A morte confirmada do líder supremo iraniano Ali Khamenei, em ataque coordenado, elevou o patamar do confronto para um nível raramente observado na ordem internacional contemporânea.
Não se trata apenas de mais uma guerra regional. Trata-se de um evento com potencial sistêmico, inserido em um contexto mais amplo de transição hegemônica, rivalidade entre grandes potências e reconfiguração da ordem global.
Responder se estamos diante da Terceira Guerra Mundial exige uma análise que combine história, teoria das relações internacionais, estrutura de poder e avaliação probabilística.
I. O Que Define uma Guerra Mundial no Século XXI?
As duas guerras mundiais anteriores — a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial — foram caracterizadas por mobilização industrial total, confrontos diretos entre grandes potências e múltiplos teatros simultâneos de combate.
Entretanto, guerras mundiais não são definidas por repetição estética de trincheiras ou frentes continentais, mas por estrutura sistêmica. Três elementos são essenciais: envolvimento de potências centrais, impacto global generalizado e reconfiguração duradoura da ordem internacional.
No século XXI, a guerra assume contornos distintos. Ela é híbrida, multidomínio e tecnologicamente integrada. Envolve ataques cibernéticos, disrupções financeiras, guerra espacial, inteligência artificial aplicada ao campo de batalha e instrumentalização de cadeias logísticas globais. O conflito deixa de ser exclusivamente territorial e passa a ser estrutural.
Assim, a Terceira Guerra Mundial, se vier a ser reconhecida historicamente, não precisará replicar os moldes de 1914 ou 1939. Ela poderá se manifestar como guerra sistêmica multipolar com características próprias deste tempo.
II. A Decapitação Política e a Gravidade Jurídica Internacional
A morte de Ali Khamenei representa um ataque de decapitação política — a eliminação do chefe máximo de um Estado soberano em contexto de operação militar coordenada por potências estrangeiras. Trata-se de um evento de extrema gravidade sob a prática internacional contemporânea.
Historicamente, assassinatos de lideranças tiveram efeito catalisador em conflitos sistêmicos. A diferença atual é que a ação não foi obra de ator isolado ou grupo insurgente, mas resultado de operação atribuída a Estados estabelecidos.
A resposta institucional iraniana — com formação de conselho interino e continuidade das estruturas de poder — demonstra que o Estado permaneceu funcional. Contudo, a estabilidade interna não elimina o risco externo. Ao contrário, a preservação da coesão estatal pode sustentar capacidade prolongada de retaliação.
III. Transição Hegemônica e Instabilidade Estrutural
O conflito atual ocorre em contexto de transição de poder global. A predominância dos Estados Unidos enfrenta contestação estratégica da China, enquanto a Rússia adota postura revisionista no sistema internacional.
A história demonstra que períodos de transição hegemônica apresentam maior probabilidade de guerra sistêmica. O sistema internacional torna-se mais volátil quando uma potência emergente desafia a dominante.
Além disso, observa-se polarização em blocos, ainda que sem formalização rígida como no pós-1945. Fóruns como o BRICS simbolizam rearranjos geoeconômicos que reforçam a multipolaridade.
O conflito Israel–Irã insere-se nesse cenário mais amplo de redistribuição de poder.
IV. O Estreito de Ormuz e o Fator Energético
O Estreito de Ormuz constitui um dos principais gargalos energéticos do planeta. Sua interrupção ou bloqueio parcial produz efeitos imediatos nos mercados globais, impactando inflação, cadeias de suprimento e decisões políticas internas de grandes potências.
Choques energéticos amplificam crises militares. A militarização de rotas estratégicas é historicamente indicadora de risco sistêmico. O fator econômico, portanto, integra o cálculo geopolítico.
V. A Variável Decisiva: Rússia e China
Até o momento, não há confirmação de entrada militar direta da Rússia ou da China no conflito. Essa contenção constitui o principal freio à classificação imediata de guerra mundial formal.
Se qualquer dessas potências decidir: deslocar forças militares para apoio operacional; fornecer suporte estratégico direto em combate; ou integrar-se formalmente ao conflito, a dinâmica sistêmica mudará substancialmente.
Guerras mundiais tornam-se mundiais quando alianças são ativadas em cadeia. A história mostra que a escalada raramente é planejada como global desde o início.
VI. Dissuasão Nuclear e Contenção Estratégica
O elemento distintivo do século XXI é a dissuasão nuclear consolidada. O conceito de destruição mútua assegurada impõe limite racional às lideranças. O custo de uma guerra total entre potências nucleares é existencial.
Esse fator reduz significativamente a probabilidade de confronto direto deliberado entre grandes potências, mas não elimina riscos de erro de cálculo, incidentes não intencionais ou escaladas gradativas.
A guerra contemporânea tende a avançar até o limiar da dissuasão nuclear, buscando maximizar vantagem estratégica sem ultrapassar o ponto de não retorno.
VII. Análise Probabilística Macro
Considerando variáveis estruturais (transição hegemônica), conjunturais (conflito direto com decapitação política) e mecanismos de contenção (dissuasão nuclear e interdependência econômica), o cenário pode ser modelado em três níveis:
Alta probabilidade de conflito híbrido prolongado e globalizado, ainda que sem declaração formal de guerra mundial.
Probabilidade moderada de expansão sistêmica caso novas potências ingressem diretamente no teatro de operações.
Probabilidade baixa, porém não nula, de escalada nuclear estratégica total.
O maior risco reside na escalada involuntária, quando decisões táticas produzem consequências estratégicas imprevisíveis.
VIII. Projeção dos Próximos 15 Dias
Precedentes históricos indicam que crises militares intensas seguem fases relativamente previsíveis. Inicialmente há intensificação de ataques e demonstração de força. Em seguida, pressão diplomática e tentativas de mediação. Posteriormente, consolidação de cessar-fogo ou expansão indireta por meio de aliados.
Se o conflito permanecer circunscrito e contido por dissuasão, poderá estabilizar-se como guerra regional ampliada. Se múltiplos teatros forem ativados simultaneamente e potências nucleares ingressarem de forma direta, a caracterização histórica poderá evoluir rapidamente para guerra sistêmica multipolar.
A janela decisória crítica geralmente ocorre nas primeiras semanas, quando lideranças avaliam custo político, econômico e militar.
IX. Estamos Formalmente na Terceira Guerra Mundial?
Ainda não há declaração formal multilateral de guerra entre grandes blocos globais. Contudo, os elementos estruturais que precederam guerras mundiais anteriores estão presentes em grau significativo: transição de poder, polarização estratégica, evento catalisador de alto impacto e militarização de gargalos econômicos globais.
A morte do líder supremo iraniano marca uma ruptura relevante na prática internacional contemporânea. Trata-se de evento que altera padrões de contenção e eleva a temperatura estratégica do sistema.
A classificação final dependerá da evolução do comportamento das demais potências e da capacidade de contenção diplomática nas próximas semanas.
X. Antecedentes Sistêmicos: Eventos e Tendências Desde 2014
A crise global atual não surgiu de um único dia, nem de um único choque. Trata-se do produto de uma série de eventos geopolíticos, conflitos e reconfigurações estratégicas que, ao longo de mais de uma década, revelaram a fragilidade estrutural da ordem internacional e a intensificação de disputas entre grandes potências e seus blocos de interesse. Para entender o presente, é necessário reconstruir esse arco histórico de eventos.
1. A Anexação da Crimeia e a Guerra na Ucrânia (2014 — presente)
O eixo central que marcou o início da atual dinâmica de tensão sistêmica foi a crise ucraniana de 2014, desencadeada após a derrubada do então presidente pró-russo Viktor Yanukovych e a subsequente ocupação da península da Crimeia por tropas russas sem identificação oficial, seguida de um referendo contestado e da anexação formal pelo Kremlin. 
Esse evento não foi um episódio isolado; ele deflagrou um conflito prolongado entre Rússia e Ucrânia, que evoluiu para uma guerra de grande escala em 2022, com intervenções diretas de Moscou em território ucraniano em múltiplos frontes.
Do ponto de vista geopolítico, a crise ucraniana:
• Reintroduziu a guerra convencional entre Estados europeus — algo que não ocorria em larga escala desde a Segunda Guerra Mundial.
• Reconfigurou alianças e incentivou expansão e reforço da OTAN.
• Levou a sanções econômicas duras e repercussões sobre cadeias energéticas e financeiras globais.
• Tornou novamente a Europa um palco geopolítico central.
Esse conflito evidenciou a centralidade de rivalidades territoriais e identitárias, combinadas com disputa de poder entre grandes potências.
2. Venezuela: Operação, Crise e Intervenção Estrutural
Desde meados da década de 2010, a Venezuela tem sido um foco de instabilidade geopolítica, associada à crise interna de governo, economia colapsada e disputa pela legitimidade do poder. O aprofundar dessas tensões acabou transbordando para além das suas fronteiras.
Em 2026, os Estados Unidos conduziram operações estratégicas cujo alcance incluía a apreensão de dois petroleiros acusados de violar embargos, um deles sob bandeira russa — um movimento com implicações claras de domínio geopolítico sobre recursos energéticos e influência na América Latina. 
Antes disso, em 2025, a Venezuela e a Rússia haviam assinado um acordo de parceria estratégica focado em cooperação energética, reforçando o vínculo entre Caracas e Moscou num contexto de isolamento diplomático ocidental.
Esse episódio é especialmente relevante por diversas razões:
1. Revela rivalidade direta entre elites norte-americanas e russas em um teatro fora do Oriente Médio e Europa.
2. Mostra a disputa por recursos energéticos como um elemento central da competição global.
3. Assinala que intervenções não são só militares, mas também econômicas e logísticas.
Assim, a Venezuela não representa apenas uma crise local, mas um ponto de tensão que se projeta em múltiplos eixos geopolíticos.
3. Alianças e Contraposições Globais: BRICS, Navalismos e Estratégias de Bloco
Ao longo da última década, além das frentes conflitivas diretas, os principais atores geopolíticos procuraram construir e consolidar espaços de cooperação alternativos ao eixo ocidental tradicional.
Exemplo disso foram exercícios navais conjuntos entre forças de China, Rússia e Irã sob o guarda-chuva informal de cooperação ampliada do BRICS e parceiros como a África do Sul, mesmo em meio a tensões globais elevadas.
Esses movimentos revelam que:
• Blocos ou coalizões concorrentes à estrutura ocidental tradicional estão se consolidando.
• Já não se trata apenas de outliers ou estados isolados, mas de alianças estruturais alternativas que desafiam a primazia de instituições e alianças tradicionais.
• A coordenação militar-diplomática, ainda que não aberta em termos de conflito direto com as grandes potências, acrescenta uma dimensão estratégica maior ao campo global.
4. Intensificação de Questões Ideológicas e Narrativas de Mundo
Paralelamente aos confrontos militares e competições por recursos, o sistema internacional passou por um processo intenso de polarização ideológica ao longo da última década:
• Narrativas de nostalgia geopolítica e revisionismo histórico
— Certos governos e lideranças têm frequentemente justificado ações expansionistas com base em tradições históricas ou identitárias, criando clivagens que extrapolam meras disputas territoriais.
• Guerra de narrativas e contestação de modelos de governança
– A rivalidade entre modelos de desenvolvimento — democrático liberal, autoritário, estatalista ou híbrido — intensificou debates e alianças em todo o mundo.
• Aprofundamento do “nós contra eles”
– Isso não se limita ao Ocidente vs Oriente, mas também se expressa em competições regionais e na instrumentalização de identidades religiosas, étnicas e culturais como justificativas para alianças e para confrontos — como tem ocorrido no Oriente Médio e em outras regiões.
Esse componente ideológico acrescenta uma camada de profundidade à crise atual, pois trata a guerra não apenas como luta por poder, mas como disputa por narrativas globais de legitimidade, identidade e futuro.
Integração e Conclusão
Ao observar o conjunto desses antecedentes — a crise ucraniana iniciada em 2014, a intensificação em 2022 da guerra na Europa, a evolução da crise venezuelana como ponto de disputa energética e estratégica, e a polarização ideológica global — fica evidente que o sistema internacional tem se movido ao longo de anos em direção a um ponto de inflexão estrutural.
O que parecia ser uma série de crises regionais desconectadas gradualmente revelou padrões de realinhamento estratégico e rivalidade profunda entre grandes potências e blocos emergentes. Esse processo acumulado criou as condições para que o choque atual — como o conflito entre Israel, Irã e o papel dos Estados Unidos — não seja um episódio isolado, mas sim a expressão sistêmica de uma ordem internacional em transição e tensão permanente.
Considerações Finais
O sistema internacional encontra-se em ponto de inflexão histórica. Rivalidades estruturais acumuladas convergiram com um choque operacional direto de alta magnitude.
A Terceira Guerra Mundial, caso venha a ser reconhecida, provavelmente será descrita como processo híbrido e multipolar, não como guerra declarada em um único dia. Sua forma será tecnológica, econômica, informacional e militar simultaneamente.
A humanidade dispõe hoje de capacidade destrutiva sem precedentes, mas também de instrumentos de cálculo estratégico mais sofisticados. A dissuasão nuclear e a interdependência econômica funcionam como freios poderosos, ainda que imperfeitos.
Estamos diante de uma bifurcação histórica. A contenção estratégica pode prevalecer, preservando o conflito como guerra regional ampliada. Ou a lógica de alianças e retaliações pode empurrar o sistema internacional para uma guerra sistêmica de escala global.
O momento exige lucidez analítica. A margem de erro tornou-se estreita. A história ainda está sendo escrita.
—
Coautores:
- Sóstenes Marchezine é advogado e vice-presidente do Instituto Global ESG
- Paola Comin é internacionalista e Diretora de Relações Internacionais do Instituto Global ESG