15/04/2024 às 16h12min - Atualizada em 15/04/2024 às 16h12min

São Paulo: sítio arqueológico guarda antiga indústria de pedra lascada

Foram coletadas peças intactas, artefatos e ferramentas a partir de pedras

Por Flávia Albuquerque/Agência Brasil
Por Flávia Albuquerque/Agência Brasil
Letícia Correa/Zanettini Arqueologia

Escavações recentes em sítio arqueológico na região do Morumbi, zona sul da capital paulista, revelaram provas da existência de uma indústria da pedra lascada datada entre 3,8 mil e 820 anos. Durante as escavações, os pesquisadores conseguiram coletar peças intactas que permitiram a datação do material, mostrando que a região foi habitada intensamente por pessoas que construíam artefatos e ferramentas a partir de pedras, com um trabalho demorado e minucioso. O número de peças é imenso, considerado até mesmo anormal, mostrando uma grande ocupação.

“Desde a década de 60 já se conhece a existência desse sítio, mas os trabalhos anteriores consideravam que, como o terreno já tinha sido muito modificado, não teria como datar, obter uma idade de ocupação, porque eles considerava que tudo ali já estava fora do lugar. Para nossa felicidade conseguimos pegar uma área inédita e obter dados inéditos. Esse foi o último trabalho porque esse sítio foi esgotado, não existe mais”, disse a pós-doutoranda na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH/USP) e coordenadora de campo, Letícia Cristina Corrêa.

Segundo Letícia, as primeiras descobertas no local começaram na década de 60. quando começaram os loteamentos no Morumbi. Um engenheiro reconheceu o material arqueológico como pedra lascada e além de registrar área como de interesse para a pré-história, recolheu peças que forneceriam mais recurso para o diagnóstico e encaminhou para o Museu de Arqueologia da Universidade de São Paulo (USP). Na década de 90, Astolfo Araújo, responsável por pagar pela datação da mostra, achou mapas antigos do local no Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) e foi até lá para fotografar e registrar o achado.

“Em 2001 uma pessoa comprou o terreno onde queria construir uma propriedade. Sabendo que era um sítio arqueológico, o dono do terreno custeou uma etapa de escavação que foi feita em 2011 por uma empresa de arqueologia. Essa empresa escavou e coletou mais de 300 mil peças de pedra e mandou para o Centro de Arqueologia de São Paulo (CASP). A área foi liberada, o proprietário construiu a casa, mas depois vendeu o terreno para uma construtora que é atual dona do lugar”, contou.

Em 2006, foi feito outro trabalho de inspeção por uma segunda empresa, porém desta vez no terreno inteiro e não só em um lote, liberando o terreno em 2008. Com a mudança da tipologia do empreendimento (antes era um condomínio de casas e atualmente a ideia é fazer prédios), em 2022, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) pediu mais um trabalho para verificar se o lugar estava esgotado de fato ou se ainda havia possibilidade de encontrar material preservado.

“Nós encontramos uma parte do sítio preservada. Escavamos uma área de mais ou menos dois por dois metros e entendemos que o material arqueológico que estava ali ainda não tinha sido perturbado pela movimentação de terra. E aí conseguimos mostrar que o material que escavamos ali realmente estava no contexto original de deposição, de quando foi gerado lá na pré-história. E assim, conseguimos coletar peças para fazer a datação”, explicou.

Letícia destacou ainda que o intervalo de 3 mil anos entre as ocupações mostra a existência de grupos chamados de caçadores coletores, que são grupos com maior mobilidade, um modo de vida diferente dos chamados de ceramistas, aqueles que já praticavam a agricultura, ficando então mais fixos em alguma localidade.

“Então a data mais antiga era, com certeza, vinculada a um grupo caçador coletor, que são muitos antigos. Quando paramos para pensar nas datas mais recentes, podemos sugerir que ou teve uma continuidade uma longa duração desses grupos caçadores indo lá buscar a matéria-prima ou essas duas datas mais recentes, elas podem estar associadas a esses grupos ceramistas que também lascavam pedra, mas não tanto como os outros. Porém, é só uma hipótese porque não encontramos cerâmica nesse sítio”.

Uma das possibilidades, de acordo com Letícia, é a de que um grupo de ceramistas encontrado em São Paulo, os Itararé Taquara, tenha utilizado o sítio como fonte de matéria-prima, já que essa população de ceramistas era uma das que também lascavam pedra de forma mais intensa do que outros ceramistas. “Essa contribuição para além de ter ampliado o acervo de material coletado e termos conseguido fazer remontagem, algo primordial no trabalho, provamos que o contexto não está perturbado. Isso foi potencialmente importante para resolver o enigma que existia”, finalizou.

A cidade de São Paulo, apesar de ser uma metrópole moderna, também possui locais de grande interesse arqueológico que oferecem vislumbres de culturas pré-coloniais e momentos históricos. Alguns dos sítios arqueológicos notáveis na região incluem:

Sítio Morrinhos: Localizado no distrito de São Miguel Paulista, este sítio arqueológico é uma fazenda que data do século XVII. Ele oferece uma visão sobre a vida rural na era colonial e sobre as práticas agrícolas da época.

Sítio Agua Branca: Este local é parte do Parque da Água Branca no bairro de Barra Funda. Durante escavações, foram encontrados artefatos que remontam à ocupação indígena da região.

Sítio Casa de Dona Yayá: Este sítio está localizado no bairro do Bixiga e é conhecido pelo seu edifício histórico, que foi preservado e transformado em um centro cultural. A área ao redor do edifício possui camadas arqueológicas que contam a história do desenvolvimento urbano de São Paulo.

Sítio da Lapa: Localizado no bairro da Lapa, este sítio arqueológico oferece evidências das populações indígenas que habitavam a região antes da chegada dos colonizadores portugueses.

Butantan Arqueológico: O Instituto Butantan não é apenas um centro de pesquisa biomédica, mas também um local onde foram encontrados importantes artefatos indígenas, demonstrando a longa história de ocupação humana na área.

Estes sítios não só enriquecem o conhecimento sobre a história antiga da região, mas também contribuem para a educação e a cultura local, fornecendo informações valiosas sobre os primeiros habitantes da área e a evolução da cidade de São Paulo.

A pesquisa arqueológica em São Paulo ainda está em desenvolvimento, e novas descobertas continuam a proporcionar insights sobre como era a vida na região em tempos pré-históricos.


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