Aline Sousa defende reconhecimento aos catadores e educação ambiental “para ontem” no Global Meeting
Catadora de terceira geração e estudante de Direito apresenta o caso da Rede Centcoop no DF, cobra remuneração justa na logística reversa e convoca a sociedade ao sistema de três lixeiras
O Global Meeting – Circuito COP30: Simpósio de Economia Circular e Cadeias Produtivas Sustentáveis, realizado no Complexo Na Praia (Brasília) e transmitido pelo Poder360 e pela TV Global ESG no YouTube, foi marcado por uma fala forte e mobilizadora de Aline Sousa — ex-diretora-presidente da Centcoop, representante do Movimento Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis e integrante da Secretaria da Mulher e Juventude da Unicatadores.
Filha e neta de catadoras, catadora de terceira geração e hoje estudante de Direito, Aline trouxe ao palco uma narrativa que mesclou história de vida, dados sobre o setor, denúncias de gargalos e propostas concretas.
“Não há circularidade sem o reconhecimento dos catadores, das catadoras”, resumiu, arrancando aplausos da plateia.
Catadores: protagonismo invisibilizado
Aline iniciou sua fala destacando a força feminina na base da reciclagem: 72% dos catadores do Distrito Federal são mulheres, proporção próxima ao índice nacional de 80%.
“Proteger quem está protegendo a nossa sociedade, que são os catadores e as catadoras”, afirmou, lembrando que essa realidade é fruto de gerações de trabalho duro e pouco reconhecido.
Segundo ela, há hoje cerca de 1 milhão de catadores no Brasil, sendo 3 mil apenas no Distrito Federal, organizados em aproximadamente 40 cooperativas.
“A gente é uma exceção no Brasil, o que está na questão da estruturação da gestão de resíduos”, reforçou, apontando Brasília como vitrine nacional de políticas públicas que incluíram catadores.
Centcoop: infraestrutura e modelo de referência
Ex-diretora-presidente da Centcoop, Aline apresentou um vídeo e relatou a experiência do complexo da rede, que reúne 21 cooperativas afiliadas e 1.008 catadores.
- O complexo abriga 11 cooperativas, com 440 trabalhadores diários em dois turnos.
- Em apenas um ano de operação, foram processadas 11 mil toneladas de recicláveis.
- Desde 2016, quando o Governo do Distrito Federal passou a contratar cooperativas, a rede cresceu de 4 para 50 contratos com o SLU, cobrindo quase 23 das 35 cidades do DF.
- Em algumas rotas, o índice de qualidade do resíduo coletado chegou a 90%.
“Visitar uma cooperativa inspira e motiva a fazer a coleta seletiva em casa”, convidou, sublinhando o valor pedagógico e social desses espaços.
Gargalo: resíduo de má qualidade e sucateamento
Apesar do avanço institucional, Aline apontou um problema crítico: a baixa qualidade do resíduo recebido.
“Todos os governos vão investir em cooperativas de catadores e elas sempre estarão sucateadas pela falta do resíduo de qualidade”, disse.
Dados apresentados mostraram que:
- As três grandes empresas de logística, que respondem por 90% do volume enviado às unidades, entregam apenas 43% de resíduo aproveitável.
- As cooperativas que fazem coleta seletiva direta ficam com apenas 10% do volume, mas de alta qualidade.
Aline lembrou que esse cenário compromete a saúde das trabalhadoras — em sua maioria mulheres —, danifica os equipamentos, gera desperdício de milhões em infraestrutura e enfraquece a cadeia da reciclagem.
“Mudança de hábito, ela se faz necessária e para ontem”, afirmou, defendendo campanhas contínuas e massivas de educação ambiental.
Justiça social e logística reversa
Em outro momento, Aline denunciou a exclusão dos catadores dos fluxos de remuneração da logística reversa.
“Quando se trata de gestão eficiente de resíduos e uma busca por uma cidade sustentável e resiliente, a gente está falando de todos nós juntos nessa”, afirmou.
Segundo ela, metas de recuperação de embalagens de 50%, 60% ou 70% só terão legitimidade se a remuneração chegar diretamente às mãos de quem pega a embalagem no lixo, processa na cooperativa e entrega à indústria.
“O orgânico não é lixo. O orgânico, ele é insumo”, complementou, defendendo a valorização de cada fração dos resíduos como insumo para a economia circular.
Ao falar de sua decisão de estudar Direito, ela explicou:
“O conhecimento prático é fundamental, mas em mesas de negociação precisamos também da base acadêmica. É com essa combinação que vamos conquistar a dignificação do nosso trabalho.”
Educação ambiental e guia prático: três lixeiras
Aline encerrou sua fala propondo um gesto simples, mas poderoso: o sistema das três lixeiras em casa.
- Reciclável/Seco — plásticos, papéis, metais, vidros limpos e secos.
- Orgânico — restos de alimentos, que podem virar adubo, biogás e novos insumos.
- Rejeito — o que não tem reaproveitamento imediato, destinado ao aterro.
Ela fez dois alertas:
- Não misturar orgânico com reciclável, para não contaminar e inviabilizar a reciclagem.
- Não misturar orgânico com rejeito, para não gerar metano nos aterros e agravar a crise climática.
“O planeta não tem mais esse tempo”, afirmou, convocando a plateia a assumir responsabilidade compartilhada.
Reconhecimento e cidadania ambiental
Aline celebrou o legado do Distrito Federal — fechamento do lixão, abertura do aterro, plano integrado, estruturação e contratação das cooperativas. Mas deixou claro que o futuro depende de dois movimentos:
- Campanhas permanentes de educação ambiental e adesão da população.
- Pagamento justo aos catadores nos sistemas de logística reversa.
“Não há circularidade sem o reconhecimento dos catadores, das catadoras”, concluiu.
Contexto institucional do evento
O Global Meeting – Circuito COP30 é uma realização do Instituto Global ESG, em parceria com a Embrapa e o Grupo R2. Conta com o patrocínio da Caixa Econômica Federal, o fomento do Grupo Arnone e o apoio interinstitucional de órgãos públicos, empresas, movimentos sociais e instituições científicas. O simpósio integra a agenda preparatória da COP30, em Belém (2025), consolidando o Brasil como protagonista em economia circular, cadeias produtivas sustentáveis e governança climática.