Dados apresentados por diretor da CVM ampliam debate sobre demanda dos investidores por informações ESG

João Accioly compara acessos a informações tradicionais e de sustentabilidade, mas ressalta que adoção voluntária permanece como alternativa para empresas que identificam valor econômico e estratégico nos padrões internacionais

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A demanda efetiva dos investidores por informações ESG foi um dos pontos centrais do debate promovido pelo Sustentalks sobre as mudanças no regime de reporte de sustentabilidade.

 

Durante a entrevista, o diretor da Comissão de Valores Mobiliários João Accioly afirmou que estudos realizados pela autarquia identificaram uma diferença expressiva entre os acessos a informações financeiras tradicionais e os registros de consulta ao capítulo ESG do formulário de referência.

Segundo ele, temas como composição acionária, governança e contratos com partes relacionadas alcançaram dezenas de milhares de acessos, enquanto o capítulo de informações ESG teria registrado 66 usuários no período analisado.

Você tem números da ordem de algumas dezenas de milhares de acessos às informações tradicionais. E a quantidade de usuários que acessaram o capítulo inteiro de informações ESG foi 66”, afirmou.

Em tom de provocação, Accioly acrescentou:

Tinha mais pessoas escrevendo artigos dizendo que isso era importante do que pessoas realmente revelando que achavam isso importante.

 

Preferência declarada e preferência revelada

O diretor diferenciou o interesse social pela sustentabilidade da utilização concreta das informações em decisões de investimento.

Existe o interesse legítimo de quem é titular do direito sobre o ambiente, que somos todos nós. Queremos saber o que a empresa está fazendo com o que é nosso, mas não necessariamente do ponto de vista do investidor”, afirmou.

Segundo Accioly, a preferência revelada pelos investidores continua fortemente relacionada ao desempenho financeiro.

O investidor, no fim das contas, quando a gente trata de preferência revelada e não da preferência declarada, quer ver o bottom line”, disse.

A afirmação não significa que fatores ambientais ou climáticos sejam irrelevantes. Pelo contrário: quando possuem capacidade de afetar receitas, despesas, ativos, passivos ou acesso ao capital, passam a integrar a análise financeira.

 

Mercado brasileiro ainda está em formação

Anne Marcikevics ponderou que os números também precisam ser interpretados à luz das características do mercado brasileiro.

Quando a gente vem com números tão distantes, de 66 para 40 mil, precisa reconhecer uma falta de maturidade do nosso próprio mercado e da nossa economia em tentar absorver essas medidas”, afirmou.

Segundo ela, o país ainda possui poucos investidores e fundos que adotam critérios estruturados de sustentabilidade como condição para alocar recursos.

Anne também observou que o reduzido número de companhias listadas limita a comparação com mercados mais desenvolvidos.

O mercado brasileiro engatinha”, disse.

 

Informação útil pode reduzir o custo de capital

A lógica original da Resolução nº 193 partia da expectativa de que informações padronizadas poderiam reduzir assimetrias e tornar a companhia mais atraente para investidores.

Accioly explicou que a produção do reporte faria sentido quando o benefício superasse o custo.

Se o investidor está demandando informações e não as tem, a companhia usa parte dos recursos para produzir essas informações. Em tese, você reduz o custo médio de captação”, afirmou.

Nesse cenário, a adoção voluntária poderia ocorrer independentemente de imposição regulatória.

Se é bom para a empresa e ela vai ter resultados positivos, não seria necessário impor a adoção obrigatória. Ela já faria isso espontaneamente”, disse.

 

O papel do mercado nos próximos anos

A alteração regulatória cria uma oportunidade para testar a intensidade da demanda dos investidores.

Empresas que conseguirem demonstrar redução do custo de capital, maior acesso a financiamento ou melhor gestão de riscos poderão incentivar outras companhias a seguir o mesmo caminho.

Ao mesmo tempo, investidores terão papel decisivo ao formular suas exigências e atribuir valor às informações produzidas.

O resultado não será medido apenas pelo número de relatórios publicados, mas pela capacidade dessas informações de influenciar decisões, melhorar a compreensão dos riscos e fortalecer a confiança no mercado.

 

Sobre esta série

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Esta é a quarta reportagem da série especial do Portal Global ESG sobre a entrevista concedida por João Accioly e Anne Marcikevics ao Sustentalks.

A série contextualiza as diferentes dimensões do reporte de sustentabilidade e procura contribuir para um debate equilibrado sobre regulação, transparência, demanda dos investidores e evolução do mercado brasileiro.

 

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Assista à entrevista na íntegra

Sustentalks — Terceira temporada

Episódio: “Sustentabilidade e CVM: recuo ou aprimoramento?”

Entrevista completa no canal do Sustentalks no YouTube:

https://youtu.be/EMjCqmPDBsA?is=yPmM9wnYYvgUgy3